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A VIOLÊNCIA SILENCIADORA DAS CHAMAS

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A VIOLÊNCIA SILENCIADORA DAS CHAMAS Candice Firmino de Azevedo 1 Resumo: Nawal Marwan silencia por cinco anos. Seus filhos, Jeanne e Simon, tentam entender o obscuro silêncio da mãe apenas após a sua morte,
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A VIOLÊNCIA SILENCIADORA DAS CHAMAS Candice Firmino de Azevedo 1 Resumo: Nawal Marwan silencia por cinco anos. Seus filhos, Jeanne e Simon, tentam entender o obscuro silêncio da mãe apenas após a sua morte, depois de ter acesso a um testamento enigmático. Assim, os fragmentos da identidade de cada personagem são desenhados em um enredo novo, em uma nova história que traz à tona o irrepresentável, o silenciável. Em Incêndios (2003), do libanês Wadji Mouawad, ficamos diante da violência social, simbólica, estilística e pessoal às quais os personagens estão submetidos, em uma dramaturgia aberta que traz a violação do sujeito como principal consequência da guerra civil. Estupro, incesto, quebra da figura arquetípica relacionada ao feminino, tortura, dor, analfabetismo, o irrepresentável viola constantemente nossa cômoda leitura. Somos violentados pela narrativa que evidencia diversas formas de violar-se e de violar o outro. À luz dos estudos de Foucault (1987), de Vidal (2012), de Benjamin (1994), de Hall (2015) e de Waiblinger (1986), nos propomos a reconstruir a história da Nawal, consumida pelo fogo dos acontecimentos que entrecortaram sua vida para, a partir de então, podermos compreender o silêncio como discurso das mulheres, que como ela, silenciam como resposta ao (in)evitável destino. Palavras-chave: Violência, Silêncio, Silenciamento, Identidade, Feminino Dentre as narrativas míticas e modernas, o fogo aparece como elemento natural que marca as mudanças, as reformas, as evoluções da humanidade. Basta pensarmos em Prometeu, que rouba o fogo do Olimpo com o intuito de agradar aos homens. Mesmo provocando a fúria dos grandes deuses, ele oferece à raça humana a oportunidade de conhecer o poder reformador do fogo, capaz de fazer ressurgir algo novo a partir da destruição provocada pelo calor das chamas. Da mesma forma, o fogo aparece em outras tantas histórias como o elemento símbolo da transformação, tal como acontece com a Fênix, que renasce das cinzas e traz a esperança de um voo de penas novas. Também, historicamente, o fogo aparece como a justificativa simbólica para a purificação das almas julgadas perdidas pelos tribunais inquisitórias da Idade Média. Era por meio da queima na fogueira que as mulheres podiam renascer novas e puras, segundo os critérios aplicados para as punições durante a Inquisição. O fogo sempre como símbolo de conhecimento, de possibilidade de mudança por meio da descoberta do novo e da dor que derrete a pele, formando um outro tecido capaz de revestir os ossos e a alma. O fogo e sua capacidade de transformação. Tendo em vista essa carga simbólica, nos deparamos com a leitura do texto teatral Incêndios (2003), de Wadji Mouawad. A narrativa traz como protagonista Nawal Marwan, uma mulher que silencia por cinco anos sem dar explicações e que deixa para os filhos um testamento capaz de fazê-los redefinir tudo o que acreditavam como verdade pessoal. Com essa proposta, o 1 Docente de Língua Portuguesa e Literaturas do IFRN, campus São Gonçalo do Amarante, RN / Brasil; Doutoranda em Teoria da Literatura, UFPE, Recife, Brasil. 1 dramaturgo libanês contemporâneo leva ao palco uma dramaturgia aberta, marcada em sua profundidade pelo drama moderno, um desdobramento do teatro épico. Ao fazer um estudo acerca da obra de Brecht, Benjamin (1994) discorre acerca da condição assumida pelo teatro moderno no que diz respeito à manutenção de determinadas características do teatro épico. Neste último, a peça é o resultado de uma orquestra que trabalha em prol da execução de um conjunto de elementos em busca da perfeita conjugação de gestos capazes de contar a história. No teatro épico, o texto não é o fundamento, e sim roteiro de trabalho capaz de interromper as ações. Assim, aos demais elementos teatrais é dada a possibilidade de interferir na construção do que vem a ser encenado, conservando do fato de ser teatro a consciência incessante, viva e produtiva (Benjamin, 1994, p. 81). Dessa forma, o teatro épico assume o caráter socrático da narrativa, de forma dura e pura, trazendo à cena o constante questionamento acerca da concatenação da própria estrutura do texto em suas constantes reformulações sugeridas pelo gesto, pela performance que marca a dinamicidade da vida representada no palco. Temos, então, o drama moderno como a produção teatral que, apesar de romper com o burilamento das épicas clássicas, conserva a importância do gesto como marca fundamental da construção coletiva do texto, assim como propõe Mouawad quando do processo de produção, evidenciando o confronto constante entre a ação teatral, mostrada, e o comportamento teatral, que mostra essa ação (Benjamin, 1994, p. 88). A sobreposição de cenas aparece, no texto, como um recurso que serve à abertura dramática. As rubricas são responsáveis pela indicação da mistura de espaços e tempos, mas, aos poucos, as cenas são intercortadas abruptamente, sem indicação de palco. A tomada de consciência dos personagens, assim como o processo de descoberta dos fatos a serem narrados são representados a partir da sobreposição, o que pode ser percebido como um recurso cênico que busca construir a narrativa como um mosaico a ser desvendado. Nawal Marwan, mãe dos gêmeos Simon e Jeanne, carrega uma fragmentação própria da pós-modernidade (Hall, 2015) representada não apenas pelo fato de ser uma mulher desconhecida dos filhos e marcada pela falta de unidade, mas pelo corpo do próprio texto enquanto estrutura fundamental. Dessa forma, o leitor acaba sendo surpreendido pela falta de limites de tempo e espaço no decorrer da narrativa, sendo provocado a buscar as partes dessa mulher que vai surgindo a partir do que é contado. Assim como para os filhos, aparece para o leitor uma Nawal desconhecida, um novo elemento aos poucos visível dentro de um polígono. Incêndios, como um drama moderno, assume o compromisso com o gesto a partir do momento em que deixa transparecer, inclusive em sua macro e microestrutura, a opção pelo jogo de 2 cenas marcado pela atitude socrática da performance sugerida pelo texto escrito, na medida em que sobrepõe cenas, tempos e espaços em cada ato. A estrutura acaba por violar a expectativa do leitor de um texto que siga um padrão temporal, solavancando-nos de nossa confortável leitura linear. Somos jogados meio ao turbilhão de pensamentos confusos e cenas entrecortadas, perdendo-nos, por instantes, assim como acontece com os próprios personagens. Compartilhamos das ações e dos gestos do outro, à medida que somos assaltados pelas dúvidas que a estrutura do texto provoca na nossa leitura. Percebemos, então, que estamos diante de um texto que desafia o pensamento comum (Vidal, 2012, p. 87) e que essa provocação é o resultado de uma atitude de não aceitação da violência como território possível. Somos violentados pela narrativa que evidencia diversas formas de violar-se e de violar o outro. Estamos diante de uma narrativa do inenarrável, do impensável e do silenciável, que viola, inclusive, a nossa mais ingênua percepção de leitura. Incêndios faz a violência surgir da linguagem, da estrutura, dos fatos narrados, da escolha lexical, enfim, de todas as camadas do texto. Dividido em 4 atos, o drama retoma o simbolismo do fogo em relação ao processo de revelação pelo qual passa Nawal e os gêmeos. O texto é uma reflexão sobre a origem, o começo, os motivos que desenham o destino. Observamos, então, uma narrativa do tempo que constrói, desconstrói e reconstrói, e de uma mulher que se afirma, depois da morte, por meio da reescritura de sua própria história, de seu enredo consumido pelas chamas. Viol(ent)ar como destino (in)evitável É possível rebelar-se do destino traçado pelas moiras do tempo? Nawal cresce em um acampamento marcado pela disputa de espaço e pela miséria, causadas pela violência da guerra civil entre refugiados e nativos. Não se sabe ao certo os motivos que levam aos ataques, mas as consequências se firmam fortemente entre as pessoas provocando a descrença social e afetiva. Na sua comunidade ninguém sabe ler, ninguém sabe escrever. O analfabetismo é a regra, assim como a intolerância e o moralismo. Esse é o começo de tudo. Um início revelado aos poucos na narrativa. Um começo nunca contado aos gêmeos Jeanne e Simon e revelado, primeiramente, para o leitor, após a leitura do testamento de Nawal e dos enigmas propostos para os filhos: 3 Jeanne, O tabelião Lebel vai te entregar um envelope. Esse envelope não é para você. É destinado a seu pai Seu e de Simon. Encontre-o e entregue a ele esse envelope. Simon, O tabelião Lebel vai te entregar um envelope. Esse envelope não é para você. É destinado a seu irmão. Seu e de Jeanne. Encontre-o e entregue a ele esse envelope. (p. 26) A rejeição dos filhos, diante dos estranhos pedidos da mãe, evidencia uma primeira forma de violência: era preciso deixar-se violar para que o testamento se cumprisse. Todos os conceitos de identidade foram colocados em xeque pelos irmãos, que se viram atordoados diante da possibilidade de terem as histórias pessoais redefinidas de forma tão abrupta. Começamos a observar a violência como elo de ligação entre as camadas do texto, pois com essa cena inicial os personagens (e os leitores) vão sendo tomados pela violação constante do corpo, dos valores sociais, do conceito de sanidade, da representação mítica do amor, da linguagem, da estrutura do texto/cena. Ao passo que a narrativa desvenda os mistérios, a cena se afirma como lugar de consolo impiedoso (p. 08), ou seja, o destino não perdoa, mas consola por ser a verdade. A violência social A história de Nawal é reconstruída para Jeanne, ao passo que a filha decide desvendar os enigmas propostos pela mãe. Em um jogo cênico espaço-temporal, a narrativa traz em flash-back o passado: Nawal Marwan vive em um acampamento de refugiados, onde o acesso à leitura e à escrita não existia. Ela, assim como a sua família e os demais, está imersa no inóspito terreno da iminente guerra civil. Não há fé. Não há esperança nem crença no amor. O mundo é mostrado, mas é silenciado porque não há o que dizer dele. Não há palavra, nem verbo que se faça carne. Contra todas as expectativas e experiências, Nawal se apaixona por Wahab e viola o moralismo estabelecido pelos demais. Ela subverte o estabelecido e vive um amor escondido do primitivismo da moral e, ao descobrir que está grávida, percebe-se diante do grande paradoxo inicial de sua vida: a felicidade será a sua infelicidade. O Incêndio de Nawal, no primeiro ato, é marcado pelo paradoxo do fogo (destruição / construção) que representa as consequências familiares da gravidez: a cicatriz causada pela 4 queimadura. Nawal está diante da primeira forma de silenciamento ao contar sobre o filho para a mãe, Jihane. JIHANE Esquece o teu ventre! Essa criança não é da tua conta. Não é da conta da tua família, não é da conta da tua mãe, não é da conta da tua vida. NAWAL Coloco a minha mão aqui, já até vejo o rosto dela. JIHANE O que você vê não importa! Essa criança não é da tua conta. Ela não existe. Ela não está aí. (p. 43) A negação é a primeira forma de silenciamento e, consequentemente, de violência a qual Nawal é submetida, justamente por aquela que deveria ser a responsável por protegê-la. A indisciplina demonstra a não docilidade do corpo de Nawal, que destoa do grupo do qual faz parte quando deixa-se levar pelo coração ao se entregar a Wahab, e sua punição é a sujeição a qual vai estar submetida pela autoridade que reconhece socialmente: a mãe. Disciplinar é necessário para que se mantenha a ordem social, mesmo que, para tanto, seja preciso violar a subjetividade do outro. Para Foucault (1987, p. 167), a disciplina é o resultado de uma observação minuciosa do detalhe, e ao mesmo tempo um enfoque político dessas pequenas coisas, para controle e utilização dos homens segundo as necessidades de manutenção social. A violência inicial é exercida pela afirmação dos detalhes morais que impõem a negação da subjetividade dos que insurgem, subvertem a ordem, seja pela gravidez ou simplesmente pela coragem que Nawal demonstra ao se apaixonar por Wahab. O analfabetismo dos refugiados, que se encontram no acampamento, também é uma marca da violência social a qual estes personagens estão submetidos. Nazira, a avó de Nawal, assume o papel da Velha Sábia do grupo, demonstrando um olhar crítico acerca das relações sociais estabelecidas no acampamento e de como isso atingiu a neta. NAZIRA Tudo isso vem da miséria, Nawal. Nenhuma beleza em volta de nós. Só a raiva de uma vida dura e que machuca. Marcas de ódio em cada esquina. Ninguém aqui para falar delicadamente. Você tem razão, Nawal, o amor que você tinha para viver, você viveu e a criança que você vai ter será tirada de ti. Não te sobra nada. Lutar contra a miséria, talvez, ou então afundar nela. (p. 45) Queima em chamas a infância de Nawal, dando origem ao ciclo que permeará toda a sua vida, marcada pela busca do filho levado embora pela parteira Elhame e da promessa feita a ele logo após nascer: Aconteça o que acontecer, te amarei pra sempre! (p. 47) Uma forma de subverter a ignorância vivida por todos daquele lugar, é tendo a coragem de aprender a ler, escrever, contar, falar. É quebrar o silêncio ao qual todos parecem estar condenados. 5 A avó Nazira, em seu leito de morte, faz Nawal prometer romper com a sucessiva linha primitiva a que sua família está submetida. NAZIRA NAWAL NAZIRA [...] Nawal, não diga sim. Diga não. Recusa. Teu amor foi embora, tua criança foi embora. Ele fez um ano. Há apenas alguns dias. Não aceita, Nawal, não aceita nunca. Mas para poder recusar é preciso saber falar. Então, se arma de coragem e trabalha duro! Escuta o que uma velha mulher que vai morrer tem pra te dizer: aprende a ler, aprende a escrever, aprende a contar, aprende a falar. Aprende. É tua única chance de não se parecer conosco. Promete isso pra mim. Te prometo. Vão me enterrar daqui a dois dias. Vão me colocar na terra, com a cara virada pro céu, sobre o meu corpo eles vão lançar, cada um, um balde d água, mas eles não vão marcar nada sobre a pedra pois nenhum deles sabe escrever. Você, Nawal, quando você souber, volta e grava meu nome sobre a pedra: Nazira. Grava meu nome pois eu cumpri as minhas promessas. Estou indo embora, Nawal. Para mim, está terminado. Nazira sabia que Nawal reescreveria a história de todos daquele lugar, inclusive a sua própria. O silêncio de não ter o domínio da palavra seria quebrado por alguém e isso marcaria um novo tempo. Ao voltar para cumprir a promessa feita à avó, ela torna-se a exceção. Dominar as palavras, apesar de ser visto com descrença pelos mais velhos, é motivo de admiração dos mais jovens, como Sawda, uma mulher que admira Nawal e enxerga, então, a oportunidade de também quebrar com a regra imposta pela cultura daquele lugar: ela quer aprender a ler e a escrever e decide acompanhar Nawal na busca por seu filho, com o intuito de reescrever também a própria história. Meio ao turbilhão de dor causado pela guerra entre milicianos e refugiados, as palavras são as munições, os cartuchos das armas: Uma palavra e tudo se ilumina (p. 56). A violência estilística A forma como o dito se apresenta na superfície do texto indica os interditos possíveis. A leitura que fazemos vai muito além do próprio texto, sugerindo relações semânticas representadas pela escolha de determinados termos ou, no caso do texto teatral, a indicação dos gestos que mobilizam a performance cênica. Nos estados contemporâneos, abandonados ao espetáculo, em que somos expropriados da possibilidade de comunicação, da linguagem enquanto instrumento de comunicação, abrese a possibilidade de pensar a linguagem como puro meio, o que definiria uma nova política. (Vidal, 2012, p. 89) 6 Ao trazer a violência como linguagem na fala do personagem Simon e na forma como são descritas as atrocidades da guerra civil, Mouawad possibilita ao leitor interagir com a história pela forma como a história é contada. A indiferença do filho, diante da mãe e de seus pedidos, é evidenciada na escolha de termos que indicam o desprezo deste por Nawal. As relações são permeadas pelo discurso da violência, desde o léxico até a forma como a morte é banalizada. A linguagem concretiza, estruturalmente, a descrença e a desumanização. SIMON Ela infernizou as nossas vidas até o fim! Vaca! Velha puta! Vaca de merda! Filha de uma cadela! Velha cretina! Vaca velha! A pior piranha da raça dela! Ela realmente encheu a porra do nosso saco até o final! A gente pensava todo dia há muito tempo ela vai morrer, essa vaca, ela vai parar de atazanar a gente, ela vai parar de nos dar nojo essa cretina! [...] (p. 27) A linguagem do palavrão, do desrespeito, é resultado do desgosto que Simon carrega em relação ao silêncio da mãe. Constantemente, Jeanne e Simon tiveram seus sentimentos violentados pela ausência de Nawal, que nunca conseguiu demonstrar o amor que se espera de uma mãe. Somos surpreendidos pela linguagem usada pelo filho, ao mesmo tempo em que percebemos a dor que ele carrega. A linguagem indisciplinada é a tônica da obra, também demonstrada na forma como as cenas das ruas em estado de guerrilha são descritas. NAWAL Eu estava dentro do ônibus, Sawda, eu estava com eles! Quando nos encharcaram com gasolina eu gritei: Não sou do acampamento, não sou uma refugiada do acampamento, sou uma de vocês, procuro meu filho que tiraram de mim! Então eles me deixaram descer, e depois, depois, eles atiraram, e de repente, realmente de repente, o ônibus explodiu com todos os que estavam ali dentro, explodiu com os velhos, as crianças, as mulheres, tudo! Uma mulher tentava sair pela janela, mas os soldados atiraram nela, e ela ficou assim, montada na borda da janela, seu filho no colo no meio do fogo, e sua pele derreteu, e a pele da criança derreteu e todo mundo foi queimado! [...] (p. 77) O leitor/espectador é constantemente violentado pela linguagem que demonstra a banalização da morte como arma que ataca e que defende. Longa sequência de barulhos de britadeiras que encobrem inteiramente a voz de Hermile Lebel. Os jatos no gramado espirram sangue e inundam tudo. Jeanne sai. O sangue espirrando no gramado é um exemplo de como a linguagem viola a cena cotidiana e de como o autor opta pela abertura do drama para a metaforização do passado. Há, constantemente, a utilização da palavra como resultado de uma escolha política, assim como sugere Vidal (2012) quando apresenta a violência como um recurso de representação da produção contemporânea. Em Incêndios, a linguagem, a cena e as noções de tempo e espaço são 7 violentadas a todo momento, assim como os personagens são expostos à violência dos fatos que fizeram com que todos tivessem as suas histórias. A descoberta do destino como consequência inevitável começa a se desenhar por meio da palavra. A violência simbólica O que se espera de uma mãe? Qual o tratamento e como são as demonstrações que atendem às expectativas sociais e simbólicas em relação à figura materna? Para Waiblinger (1986, p. 17), os mitos da procriação, do nascimento e da vida [...] refletem o conhecimento das grandes conexões, tanto do cosmo como da alma humana e a Grande Mãe, enquanto figura arquetípica, é a maior forma de representação da divina capacidade de criar. Nawal é um exemplo do poder social desse arquétipo. O filho do amor por Wahab conhece, mesmo que por instantes, a mãe arquetípica que tenta proteger e que promete amor eterno. Em contrapartida, Jeanne e Simon sofrem com a recusa de Nawal de exercer esse papel, o que os faz nutrir um sentimento de ódio pela mãe. SIMON [...] Por que nesse testamento de merda ela não diz uma única vez a palavra meus filhos pra falar da gente?! A palavra filho, a palavra filha! Não sou otário! Não sou otário! Por que ela diz os gêmeos?! A gêmea e o gêmeo, filhos saídos do meu ventre, como se a gente fosse um monte de vômito, um monte de merda que ela foi obrigada a cagar! Por quê?! A revolta de Simon, diante da aparente indiferença da mãe, é o resultado da viola
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