Others

A-Visibilidade-da-Igreja-Sobre-uma-das-características-da-verdadeira-Igreja-Gustavo-Corcao.pdf

Description
Corcao
Categories
Published
of 12
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Related Documents
Share
Transcript
  A VISIBILIDADE DA IGREJA Gustavo Corção 1. Vamos hoje nos deter na palavra visível de nossa primeira e aproximadadefinição da Igreja, isto é, vamos explorar mais em profundidade oconteúdo daquele termo, como se nele aplicássemos uma lente que não sóamplia como também revela a riqueza de detalhes, de conseqüências e deaplicações que nos havia escapado em nossa primeira aproximação. Antes de mais nada convém notar que o termo visível é aqui usado com asignificação mais ampla de sensível , isto é, daquilo que nos é acessívelpelos sentidos. Como a visão é o mais nobre dos sentidos, nós usamos apalavra visível para indicar o que se vê, o que se ouve, e de um modo geraltoda a ordem do sensível. Dizendo que a Igreja é visível nós queremossignificar que ela tem para nós, desde a cruz que vemos no alto da torre atéo Eu te absolvo... que ouvimos no confessionário, a nitidez corpórea dapedra ou do pão. Gravemos pois esse mais amplo sentido que damos dovocábulo, e empreendamos a sua progressiva sondagem. 2. Logo no primeiro exame do conceito nós encontramos a óbvia visibilidadeque nós mesmos damos à Igreja pelo fato de sermos seus membros. AIgreja é visível em nós, de uma visibilidade humana. Em nós, e nas obras denossas mãos; em nossos rostos, e nas torres das catedrais; em tudo isto,em suma, que se vê de longe, e que fere a atenção dos mais desatentos, aIgreja é visível de uma primeira e ainda superficial visibilidade.. Parece pouca coisa esse primeiro e tão fácil exame de conceito, masdevemos notar que é já neste nível da significação que se inicia o ataque àIgreja de Deus. Os pseudo-super-espirituais começam por solapar esseprimeiro contato da Igreja com a humanidade do homem. Quereriam umaIgreja mais despegada da terra, e menos carregada da miséria de seusfilhos. Nós vimos, nas lições anteriores, que entre os membros atuais doCorpo Místico contam-se justos e pecadores. Pecadores de pecado mortal,desde que não cheguem à heresia, à excomunhão e à apostasia, são aindamembros atuais do Cristo, membros mortos mas ainda presos à videira. Sãoinúmeras as passagens das Escrituras em que está assinalado este carátermisto, transitório, peregrino da Igreja. A parábola do joio e do trigo (Mt 3, 2);o banquete nupcial em que se sentam bons e maus antes da chegada doSenhor (Mt 32, 2); as dez virgens que esperam, cinco prudentes e cincoloucas (Mt 25, 1); e tantas outras passagens nos falam do Reino, da Igreja,como de um regime de espera em que, por assim dizer, a paciência do1  Cristo se estica por séculos e séculos, até o dia da grande e decisivaseparação. Se a Igreja fosse constituída somente de membros perfeitos, santos, justos(em estado de graça) como pretendem os pseudo-super-espirituais, nós nãosaberíamos encontrá-la, pois só Deus sabe quem está em pecado. Ela seriainvisível. Ou seria enganadora, a nos induzir perfidamente em erro, em vezde nos oferecer a garantia de uma realidade acessível aos nossos passos. Nós já dissemos que a Igreja é o Cristo continuado; já mostramos que suafunção instrumental é um prolongamento da instrumentalidade salvadorada humanidade de Cristo; e nessa perspectiva nós diríamos agora que aIgreja invisível dos super-espirituais seria uma magnífica inutilidade. Antes da Reforma já os novacianos e donatistas queriam que os pecadoresnão pertencessem à Igreja, mas foram sempre refutados pelos detentoresda tradição. Dizia assim Santo Agostinho: Home sum in area Christi: palea,si malus; granum, si bonus . [1] São Jerônimo também comparava a Igreja àArca de Noé, onde se misturavam o lobo e o cordeiro. [2] Será preciso recordar que a Igreja tem partes invisíveis? Sua alma éinvisível. A Igreja triunfante é também invisível. Mas tomada no seu todo,em sua realidade completa, basta que uma parte seja visível para que sepossa dizer que é visível o todo, embora não totalmente visível. No homemtambém a alma, considerada em separado, é invisível; mas o homem todo évisível, visível pelo seu corpo, sem dúvida, mas visível no seu todo vivo eanimado. 3. Mas não é somente dessa primeira visibilidade, encontrada nos seusmembros, que nós dizemos ser visível a Igreja. É do Homem-Deus, do VerboEncarnado, que a Igreja tira a sua feição, seus contornos, sua vida, e suanatureza divino-humana; e é dessa visibilidade enquanto divina quedevemos nos ocupar agora. Essa é propriamente a visibilidade essencial daIgreja, e é dessa marca essencial, sinal de realidades divinas, que nos fala aencíclica de Pio XII, Mystici Corporis Christi. [3] E é também a esse caráterde sinal visível de coisas invisíveis que se refere o Concílio do Vaticanoquando ensina que a Igreja é permanentemente um milagre. Ninguém pretende, evidentemente, que o sobrenatural, que especifica essasociedade fundada por Cristo, seja em si mesmo visível. O que dizemostodos, em obediência ao magistério, é que a invisível realidade divina fereos nossos olhos e os nossos ouvidos através da Igreja. 2  Dissemos que a Igreja segue o estilo da Encarnação. A rigor, pensandonuma Igreja antes da Igreja, na expressão do Pe. Sertillange [4], nóspoderíamos dizer que Deus, antes da Encarnação, fiel ao seu planopolarizado na pessoa do Cristo Jesus, já se manifestara aos homens de ummodo sensível. A voz dos profetas, por exemplo, já era um sinal sensível, jáera um prenúncio da Igreja do Verbo Encarnado; já era, na obscuridade daexpectativa, um rumor de preparativos e um albor de madrugada. Mas o característico desses tempos de advento, que a Igreja rememora hojecalando a música e paramentando-se com a cor das sombras, era semdúvida uma certa obscuridade. A voz do profeta ecoava na noite doscaminhos — Ouve! Ouve, Israel! — buscando mais o ouvido do que avisão. Os sinais de Deus eram velados, abafados, escondidos. Vejam agora o que acontece no mundo quando nasce em Belém o filho deMaria; e observem bem o que dizem os pastores, quando ouviram dos anjosa boa nova: Vamos até Belém, e vejamos o que sucedeu e que o Senhornos mostrou. E foram com grande pressa e acharam Maria e José, e omenino deitado numa manjedoura. E vendo isto compreenderam aspalavras que lhes tinham dito sobre o menino. E todos os que ouviram seadmiraram do que lhes diziam os pastores. Maria, entretanto, guardavaessas palavras, meditando-as no seu coração. E os pastores voltaramglorificando e louvando a Deus, por tudo o que tinham ouvido e visto,conforme ao que lhes tinha sido anunciado. (Lc 2, 15, 20) Notem primeiro a desembaraçada decisão dos pastores: Vamos atéBelém . Eles têm um endereço, um lugar aonde ir, como nós hoje temos adireção, o itinerário de nossa paróquia. Eles já têm o caminho certo, o lugarpreciso, a solução exata para os pés, antes de tê-la completa para ocoração. Creio que foi um personagem de Dostoievski que dizia em certa altura desuas aflições: Haverá para o homem coisa pior do que não ter aonde ir . Etinha razão. O drama do mundo é o da perda do antigo endereço: Mas ospastores o tinham. Vamos a Belém. E vejamos. E vendo, compreenderam. Ecompreendendo, voltaram glorificando e louvando. Na liturgia de Natal, especialmente na 2a. Missa que acompanha oamanhecer, a palavra luz e seus derivados todos tomam conta do texto. ONatal é uma iluminação do mundo. A Encarnação traz para o mundo umnovo regime de mais luz, como queria Goethe no seu leito de morte. Ouçampor exemplo o velho Simeão, quando teve a ventura de segurar nos seus3  cansados braços o menino Jesus: Agora, Senhor, despedi em paz o vossoservo, segundo a vossa palavra; porque os meus olhos viram a salvação...  Pensemos agora na cruz espetada no alto do monte. A luz está no seuelevado candeeiro. A cidade santa se estabelece no alto do monte, porqueos seus cidadãos são a luz do mundo. Vós sois a luz do mundo... e assimbrilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obrase glorifiquem o vosso Pai que está no céu . (Mt 5, 14) Em Pentecostes a Igreja nascida da Cruz manifesta seu maior esplendor, erecebe do Espírito um decisivo impulso para sua missão. Sopra o vento,descem línguas de fogo, e as vozes dos apóstolos se multiplicam pelosdiversos idiomas, tudo mostrando, com profusão, a força visível do invisívelConsolador. A Igreja cresce, diferencia-se, hierarquiza-se, realizando nessadiversidade impetuosa o desdobramento das graças que estavam emplenitude na pessoa única do Cristo. Aplica-se aqui um grande princípio: a plenitude de perfeição, que em Deusse encontra na suma simplicidade, nas criaturas se manifesta nadiversidade. A unidade pessoal do Cristo corresponde agora na Igreja umadiversidade de pessoas, de grupos, de ordens religiosas, paróquias,associações, tudo isso vinculado numa unidade assegurada pelo Espírito deCristo. Ao contrário do que diziam os autores super-espirituais que chegaram aperturbar a grande Teresa d'Ávila, e que pretendiam ver na Ascensão deCristo, e na descida do Espírito, uma manobra de Deus para nos livrar davisibilidade do seu Corpo, nós podemos dizer sem receio que Nosso Senhorse tornou ainda mais visível no seu Corpo Místico espalhado pelo mundo. AIgreja é de fato o alastramento universal do Salvador. O sangue derramadoé agora estendido, e tinge o mundo inteiro numa prodigiosa iluminura. E aIgreja cresce, como cresce o dia, de claridade em claridade . 4. Os protestantes, sob esse ponto de vista, cometeram o erro de quem seobstinasse a andar às apalpadelas numa sala sombria por não ter percebidoque o sol já nasceu. Persistem na obscuridade adventista, num sinistro equívoco, e dizem de nósque somos idólatras, porque usamos estátuas, estampas, vitrais eiluminuras, como se o uso de imagens implicasse necessariamente a suaadoração. Eles não sabem, ao que parece, que o Salvador trouxe a luz domundo, e a unção dos olhos e dos ouvidos. E chegam a esquecer apesar doseu propósito de remontar às fontes — que é sempre suspeito na vida do4
Search
Tags
Related Search
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks