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AAbreu Um Politico

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Juracy Magalhães
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    1  UM POLÍTICO E DOIS DEPOIMENTOS *  Alzira Alves de Abreu CPDOC/ FGV INTRODUÇÃO  Nosso interesse aqui é apresentar algumas reflexões sobre a construção e a  publicação de dois depoimentos orais do político Juracy Magalhães, um prestado a historiadores e o outro a um jornalista/escritor. O primeiro depoimento resultou de uma entrevista com esse ator político realizada no CPDOC/FGV, dentro de um projeto de pesquisa de seu Programa de História Oral. A perspectiva metodológica desse programa, criado com o objetivo de reunir entrevistas com lideranças políticas que atuaram a partir de 1930, é a de utilizar o ator como suporte social das decisões, estruturas e processos, ao invés de reconstituir acontecimentos de duração limitada e de alcance mais restrito . 1  Assim, durante o ano de 1977, historiadores do CPDOC( entre os quais me incluo) dedicaram-se ao trabalho de reconstituição da trajetória de vida de Juracy Magalhães, que esteve ligada aos principais acontecimentos que marcaram o país de 1930 a 1964. Terminada a entrevista, foi feita a sua edição e preparou-se o texto para a publicação. O livro intitulado Minhas Memórias Provisórias veio a  público em 1982. 2  Em 1996 foi lançado o livro O Último Tenente, de Juracy Magalhães em depoimento ao jornalista/escritor J. A. Gueiros. 3  Temos assim uma história de vida registrada em dois livros e é sobre isso que iremos falar. *  Trabalho apresentado no XX Encontro Anual da ANPOCS. Caxambu,MG,22 a 26 de out.1996 1 Aspásia Camargo. O método qualitativo: usos e perspectivas. Mesa redonda. Sociedade Brasileira de Sociologia(SBS). Brasilia, 10 de julho de 1987. 12 p. mimeo. p.9. 2 Juracy Magalhães. Minhas Memórias Provisórias: depoimento prestado ao CPDOC. Coord. Alzira Alves de Abreu, Eduardo Raposo Vasconcelos e Paulo César Farah. RJ. Civilização Brasileira, 1982. 3 José Alberto Gueiros. O último tenente. RJ: Record, 1996.    22. O HISTORIADOR E O JORNALISTA NA CONSTRUÇÃO DE UMA MEMÓRIA A produção intelectual dos dois livros suscita algumas questões relativas à sua orientação metodológica. O primeiro é um livro construído a partir de uma longa entrevista (21 horas de gravação) onde duas vozes estão presentes: a do entrevistado e a(s) do(s) entrevistador(es)/historiador(es). As fitas gravadas se encontram à disposição do  público no arquivo sonoro do CPDOC. Todo o processo de passagem do depoimento oral para a forma escrita, se encontra explicitado na Apresentação de Minhas Memórias Provisórias. O método utilizado confere uma especificidade ao trabalho, distinguindo-o da  biografia e da autobiografia clássicas, embora ele tenha a propriedade de conter essas duas dimensões. Assim sendo, seríamos imprecisos se incluíssemos o livro dentro do que geralmente se denomina gênero biográfico, mesmo aquele elaborado  pelo historiador ou cientista social, que resulta da reunião de dados, informações, depoimentos, estudos e questões teóricas, que permitem reconstituir a vida de um  personagem e do mundo em que ele viveu. Nesse caso, todos os dados são submetidos a uma análise crítica rigorosa, e há uma preocupação do cientista com a neutralidade, a objetividade. Um outro tipo de biografia é a que é elaborada sob encomenda do biografado ou de sua família. Nesse caso, o trabalho é explicitamente laudatório, e o objetivo é exaltar, elogiar, apontar as grandes realizações e os serviços prestados à comunidade  pelo biografado, não havendo nenhum compromisso com a objetividade. A autobiografia, por sua vez, é a história tal como a pessoa que a viveu conta, é a  própria narração da vida do autor. Ao escrever sua vida, o autor passa a refletir sobre ela, a explicitar e a entender muitas contradições que até então não percebera. Mas ele está só, e se isso lhe possibilita escolher os aspectos de sua vida que lhe  parecem mais relevantes, dificulta também trazer à tona fatos apagados de sua memória. Permite escolher aspectos, posições ou interpretações de sua vida que lhe são mais favoráveis do seu próprio ponto de vista.    3Poderíamos ainda lembrar um outro gênero, o diário íntimo, onde a liberdade do narrador, que fala de si mesmo e para si mesmo, pode levar à revelação de aspectos de sua personalidade, de sentimentos de auto-estima ou auto-admiração, ou de sentimentos em relação aos outros mais difíceis de aparecer nos demais tipos de depoimentos. O autor prepara o seu perfil ou a sua biografia para o futuro, escreve  para um público ainda muito distante. Minhas Memórias Provisórias envolve essas dimensões, mas não se reduz a nenhuma delas. É através de um longo diálogo entre o historiador e o entrevistado que o passado deste último é reconstruído, com um objetivo primordialmente histórico.  Nunca é demais lembrar que a reconstituição de uma vida a duas vozes envolve a habilidade do entrevistador na condução da entrevista, ajustando e adaptando suas  perguntas à dinâmica que se estabelece nessa interação. O historiador que pretende fazer uma entrevista com objetivo histórico deve elaborar roteiros consistentes, o que lhe permitirá o controle do que está sendo narrado. Ele detém um conhecimento das ações e atuações do ator político, na medida em que busca dados e informações em outras fontes, logo não é um ouvinte passivo. Ao contrário, ele interfere no discurso apontando incoerências, deficiências de explicação, e conduzindo o entrevistado à reconstrução do seu  passado dentro de uma lógica que é muitas vezes a sua própria, de historiador. No caso analisado, que é o do ator político, muitas vezes o entrevistado tem um discurso estruturado e mesmo cristalizado, uma explicação de sua vida pronta para a história. Ainda assim o diálogo com o historiador interfere nesse discurso, introduzindo outras lógicas e fazendo com que apareçam outras relações que não faziam parte daquele todo estruturado. O que acaba de ser dito se refere à obtenção de um depoimento segundo os  procedimentos da história oral. Mas o leitor de Minhas Memórias Provisórias não encontra no livro o depoimento tal qual ele foi obtido. A ordem dos acontecimentos e fatos narrados não aparece da mesma maneira, nem o encadeamento dos temas tratados segue a mesma lógica. A razão disso está no fato de que a entrevista, ao ser editada, sofre um processo de remontagem, quando se reagrupam perguntas e se eliminam repetições, com o objetivo de tornar o discurso do entrevistado mais    4fluente e de leitura mais agradável. São introduzidos títulos ao longo dos capítulos, de modo a indicar para o leitor os principais acontecimentos ou fatos históricos que tiveram a participação do entrevistado. É nesse momento que participa do trabalho um redator, que tem o cuidado de fazer a passagem do discurso oral para o escrito, na medida em que não se fala da mesma maneira como se escreve. A preocupação, nessa passagem, é a de preservar o conteúdo do discurso e permanecer o mais  próximo possível da linguagem e das expressões do depoente. Notas explicativas ajudam no esclarecimento de fatos e acontecimentos que durante a entrevista não foram suficientemente desenvolvidos. Ao indicar para o leitor o método usado na construção da memória do entrevistado, ao manter as perguntas feitas na entrevista, o livro Minhas Memórias Provisórias permite uma compreensão do diálogo travado e explicita a dinâmica que conduziu às respostas que constituem o depoimento. É esta a caracterísitica  principal deste livro: revelar um depoimento e, ao mesmo tempo, mostrar como ele foi obtido e organizado. Podemos nos voltar agora para o segundo livro,O Último Tenente, que é também  baseado no depoimento de Juracy Magalhães, de acordo com a informação que aparece na capa e no Prefácio. Pode-se ler aí que: A narrativa livre de Juracy Magalhães está aqui fielmente transcrita. Entretanto, algumas questões se colocam em relação a esse depoimento. Primeiro, a entrevista em estado bruto não parece estar disponível para a consulta de terceiros. O autor do livro, J.A.Gueiros, não indica como outros pesquisadores ou  pessoas interessadas na vida desse personagem e no período em que atuou podem ter acesso ao registro direto do depoimento, ou seja às fitas gravadas. Um outro  ponto que chama a atenção é que o livro se apresenta como um depoimento a uma única voz: só Juracy Magalhães narra os fatos de memória, ou seja, as perguntas não aparecem. Não são dados ao leitor esclarecimentos sobre o papel que o entrevistador desempenhou e como ele interferiu na obtenção do depoimento, embora o livro tenha como autores o entrevistado e o entrevistador. A supressão das perguntas pode ter respondido ao interesse tanto do entrevistado como do entrevistador. Essa estratégia parece corresponder ao que Nicole
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