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Abismo

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   Abismo Entre o céu e o meu, existe a boca. No céu da boca, tempestades degustativas: amargo, cerúleo, doce, apimentado, ranzinza, ferrugem, fuligem. Passeando as mãos pelo corpo, sinto uma brisa forte que invade as costelas, há uma brecha entre cada osso vazado, dentro de cada espaço, uma vazante. Maré cheia, mareia. Vai e vem a ressaca que escorrega nos dedos colorindo o olho que procura os cantos das paredes. É difícil silenciar, é difícil salientar, é difícil sentir. É DIFÍCIL. Sobem os céus azuis: amarelinhas do desejo de chegar ao céu. 1, 2, 3, salvem todos. O céu é bem maior se na boca.  A imensidão azul é a cegueira. Eu e o mar. Eu e o céu. Eu sem ar escacaviando  dentro de mim uma possibilidade de fuga, ajuda, que esses desejos nunca hão de se completar. Tenho falhado absolutamente em tudo, acerto quando erro.  Todos são bons e de coração puro. Eu, egoísmo. Eu, vaidade. Eu, proibido. Eu, cidade. Perigo. Possibilidade de fuga. Há sempre becos por onde possamos fugir. Há sempre um abismo no final de cada passo. Criança frágil não chega a ter meninice. Eucaristias. Comunhões. O choro da mãe acuada, feliz, vivendo em ter o filho comendo o primeiro pedaço de pão. O choro da mãe acuada, estarrecida, sonhando em um dia sair de lá. O lá é aqui. O lá nunca é lar. A ficha de orelhão entregue às pequenas mãos magras que o soro ajudou a ressecar a pele. - Primeiro coloca o código ddd  –   as palavras saindo da boca da mãe e o menino curioso só consegue ver os três irmãos gordinhos do comercial de televisão  –   e depois o número do telefone. - Alô? A vó. Tum tum tum. Eu só queria brincar. Brinquemos, mas não esqueça de lavar as mãos. Luísa, Marília, Carlos, Francisco, Cícero. - O Cícero foi pra casa. E no repasse de plantão a notícia: Hoje o rádio do Cícero não tocou mais. O choro da mãe acuada, desapontada, revelaram a sua primeira mentira. O choro da mãe acuada, satisfeita, nunca mais olharemos pra trás.  As malas no carro. O céu desponta celeste, inveja. Os lábios ainda roxo da última transfusão. O céu da boca seco. O útero secou. O olho amargo. A saliva amargou. Entre o céu e o meu, existe a boca. No céu da boca, tempestades degustativas: amargo, cerúleo, doce, apimentado, ranzinza, ferrugem, fuligem. Incendiários invadiram o palácio enquanto tropas de choque chocavam chocos numa espécie de transe. Pedras invadiram o congresso. Ratos, sapos, gatos, peixes-boi.  Entre o céu e o eu, abismo.
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