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The Forum of the Igaeditani and the early times of civitas Igaeditanorum (Idanha-a-Velha, Portugal)

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This article presents the previously unpublished results of the archaeological excavations carried out between 2007 and 2008 in the forum of the capital of Igaeditani. Among the novelties found during the two excavation campaigns we can highlight the
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  O FORVM  DOS  IGAEDITANI  E OS PRIMEIROS TEMPOSDA CIVITAS IGAEDITANORVM  (IDANHA-A-VELHA,PORTUGAL)THE FORVM  OF THE  IGAEDITANI  AND THE EARLYTIMES OF CIVITAS IGAEDITANORVM  (IDANHA-A-VELHA, PORTUGAL) PEDRO C. CARVALHO CEAUCP. Instituto de Arqueologia. Universidade de CoimbraRESUMENSe pretende dar a conocer los resultados —aún inéditos—de las excavaciones arqueológicas llevadas a cabo en 2007 y2008 en el  forum de la capital de  Igaeditani . Entre las prin-cipales novedades recogidas durante las dos campañas deexcavación se destaca la fecha de construcción del  forum (concomprobada cronología Augustiana, fundamentada ésta, porprimera vez, en el registro estratigráfico y siendo diferente dela que ha sido generalmente avanzada últimamente), o la pre-sencia de un edificio singular con paredes divisorias construi-das en tierra, que fue destruido durante la construcción del con- junto forense. También con base en los resultados de estasexcavaciones, se discute la posibilidad de una ocupación dellocal durante la Edad del Hierro así como la fecha de la fun-dación de la ciudad romana, procurando también integrar elmomento de construcción del  forum en el proceso de promo-ción política y jurídica de esta civitas del interior norte de la  Lusitania .SUMMARYThis article presents the previously unpublished results of the archaeological excavations carried out between 2007 and2008 in the  forum of the capital of   Igaeditani . Among thenovelties found during the two excavation campaigns we canhighlight the date of the forum’s construction (with verifiedAugustan chronology based for the first time on the stratigraph-ic record and different from what has lately been put forward)or the presence of a singular building with dividing walls builtof earth, which was destroyed during the building of the  forum . Also based on these findings from the excavations wediscuss the possibility of its occupation during the Iron Ageas well as the date of the founding of the Roman city, endeav-ouring to relate the moment when the  forum was built to theprocess of political and juridical promotion of this civitas inthe north inland part of   Lusitania .PALABRAS CLAVE: civitas Igaeditanorum, forum, ordena-miento administrativo augusteo, paredes en tierra.KEY WORDS: civitas Igaeditanorum , forum , Augustan ad-ministrative order, earth walls. 1.INTRODUÇÃOA civitas Igaeditanorum , e particularmente a suacapital (cujo local coincide com a actual aldeia deIdanha-a-Velha, concelho de Idanha-a-Nova, distri-to de Castelo Branco), ocupou um lugar de destaqueno quadro da ocupação romana do interior norte da  provincia Lusitania (Figs. 1 e 2). Embora esta cida-de romana tenha sido objecto de intervenções con-tinuadas (destacando-se aquelas que, entre as déca-das de 50 e 70 do séc. XX , foram dirigidas por D.Fernando de Almeida; Almeida, 1956, 1964, 1970 e1977; Almeida e Ferreira, 1964 e 1966) e se conhe-çam no local vários restos construtivos que testemu-nham a sua relevância (para além de um acervo epi-gráfico verdadeiramente excepcional; Sá, 2008),muita da informação disponível carece hoje de actu-alização, designadamente aquela que respeita ao seucentro monumental (Cristóvão 2005). Com efeito, onosso conhecimento acerca do cenário físico do prin-cipal centro cívico da cidade dos  Igaeditani perma-nece relativamente limitado.Do forum dos  Igaeditani resta visível, em gran-de parte sob a conhecida torre de menagem do cas-telo templário, o pódio do seu principal templo (Fig.3). Com uma planta de proporções regulares (17,4 x9,2 m) e construído com grandes silhares, o temploprincipal poderia eventualmente corresponder, quantoà planta e ao número de colunas na fachada, aotipo prostilo / tetrastilo (Hauschild 2002: 220) oupseudo-períptero / tetrastilo (Mantas 2006: 89), em-bora desta parte superior do templo nada reste. Paraalém do edifício religioso, que em posição axial Archivo Español de Arqueología 2009, 82, págs. 115-131ISSN: 0066 6742doi: 10.3989/aespa.082.009.005  116PEDRO C. CARVALHO  AEspA 2009, 82, págs. 115-131ISSN: 0066 6742doi: 10.3989/aespa.082.009.005 dominava o complexo forense e organizava a suacomposição espacial interna, alguns troços de murose certos alinhamentos, aflorando à superfície ou apre-sentando-se sob a forma de socalcos, denunciamoutras componentes construtivas e funcionais do prin-cipal recinto da cidade romana: as fundações de umpórtico nas traseiras do templo, restos de maciçosquadrangulares que suportariam possíveis escadari-as laterais de acesso ao templo e um grande muro desuporte e contenção de aterro que delimitava o fo-rum (cuja área total rondaria os 76 x 34m) e o so-brelevava ainda mais em relação à restante malhaurbana (Mantas 1993: 246-247 e 2006: 88-90; Cris-tóvão 2002: 12-13 e 2005: 194-197) 1 (Figs. 4 e 5).No que concerne ao templo principal do forum,Vasco Mantas começou por aventar a possibilidadedeste ter sido consagrado a Vénus (Mantas 1993: 246-247). Posteriormente, reconsiderou a sua posição,tomando antes como mais plausível a sua vinculaçãoa Júpiter (como tinha antes sido sugerido por Jorgede Alarcão 1988a: 39), passando também a situar osdois pequenos templos construídos por C. Cantius Modestinus (denunciados por inscrições a Vénus e aMarte) à entrada do forum, no lado nascente (Man-tas 1993: 246-248; 2002: 233). Um destes templetes,segundo Vasco Mantas, poderia mesmo revelar-se nas«ruínas de uma estrutura construída perpendicular-mente ao muro principal do forum, com uma solei-ra a cerca de 5 metros desse muro», observáveis nocanto sudeste do forum (Idem, Ibidem), e cujas di-mensões poderiam ser semelhantes às do templo daPonte de Alcântara (Mantas 2006: 89).Uma cronologia flaviana, ou inscrita no últimoquartel do séc. I d.C. (ou já nos inícios do séc. II ),associada a uma promoção municipal e baseada Figura 1. Localização da civitas Igaeditanorum na  Hispania e em relação à provincia Lusitania . 1 Continua por esclarecer se o plano deste forum contem-plava uma basílica. E se, a confirmar-se a sua presença, esteedifício compunha desde logo o plano inicial augustano outerá sido incorporado numa alegada reforma posterior; ouainda, qual dos lados da praça a basílica terá ocupado: umdos lados menores, no lado oposto ao templo, ou um dos la-dos maiores, correndo em frente à praça?Figura 2. A actual aldeia de Idanha-a-Velha vista de sul e,ao fundo, o cerro de Monsanto (Foto: Danilo Pavone).  117O FORVM  DOS  IGAEDITANI  E OS PRIMEIROS TEMPOS DA CIVITAS IGAEDITANORVM... AEspA 2009, 82, págs. 115-131ISSN: 0066 6742doi: 10.3989/aespa.082.009.005Figura 3. Torre do castelo dos Templários assente sobre opódio do templo romano. fundamentalmente em algumas características cons-trutivas e no modelo arquitectónico que este complexoforense reproduz, tem sido usualmente avançada nosúltimos anos como a mais provável para a construçãodo forum cujas ruínas hoje se observam (Mantas 1993:235 e 2006: 89-91; Cristóvão 2005: 196-197).Porém, quer as questões de ordem construtiva,quer aquelas que se prendem com a data de cons-trução do forum, só poderão ser esclarecidas atravésde escavações arqueológicas, se possível integradasnuma intervenção em larga escala que temos em pro- jecto para este monumento 2 . À partida, outras ques-tões existem, em grande parte permanecendo emaberto, que a escavação desta zona central de Idan-ha-a-Velha também poderá ajudar a resolver. Desdelogo, se este lugar —entre um dos meandros do rioPônsul— conheceu uma ocupação pré-romana, re-montando eventualmente à Idade do Ferro, ou se, pelocontrário, a fundação da cidade dos  Igaeditani foifeita de raiz ( ex nihilo ), num lugar até então vazio depovoamento. Depois, afigura-se igualmente importan-te procurar obter elementos que permitam precisar omomento dessa referida fundação e a própria naturezado estabelecimento desses primeiros tempos, cotejan-do, para o efeito, o registo estratigráfico a efectuarcom o registo epigráfico conhecido. Por último, po-derá procurar-se integrar o próprio momento de cons-trução do forum (ou de outros momentos eventual-mente distintos relacionados com os seus elementosconstituintes; ou mesmo de um outro recinto públi-co que poderá tê-lo antecedido e cujos alegados restospoderiam ainda encontrar-se subjacentes), no processode promoção política e jurídica que se seguiu (desdea constituição da civitas , à atribuição do direito latinoe/ou à outorga do estatuto municipal).2.AS ESCAVAÇÕES NO FORVM (2007/08)A generalidade das sondagens efectuadas revela-ram uma sequência estratigráfica com contornos si-milares e que sugerem o seguinte: por um lado, aantiga intervenção promovida por Fernando de Al-meida na área em redor da torre do castelo dos Tem-plários, terá removido todos os níveis romanos deocupação e de abandono (e, obviamente, também osníveis pós-romanos, tendo apenas ficado alguns ali-nhamentos de silhares visíveis hoje à superfície); poroutro, aquilo que restará por escavar parece ser fun-damentalmente um volumoso nível de aterro aquidepositado aquando da construção do forum, como intuito de sobrelevar a área deste recinto em rela-ção à malha urbana (Fig. 4). Com efeito, parece-oshoje claro que a intervenção de Fernando de Almeidase orientou principalmente no sentido de colocar adescoberto o pódio do templo romano / torre dosTemplários e outros alinhamentos associados (Fig. 3).Para o efeito, terá procedido à remoção dos níveis deocupação e destruição romanos e pós-romanos pos-sivelmente pejados de materiais. Essa sua interven-ção cessou logo que o pódio ficou liberto e observá-vel e quando, simultaneamente, terá co-meçado aencontrar níveis de aterro por vezes praticamenteestéreis em termos de espólio arqueológico. 2 Projecto que gostaríamos de ver concretizado em colabo-ração estreita com a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova:autarquia que financiou já por completo as sondagens de2007 e 2008. Aproveitamos o ensejo para agradecer em par-ticular aos arqueólogos do município, José Cristóvão e Patrí-cia Dias, todo o inestimável apoio dispensado.Figura 4. Vista geral de noroeste da plataforma sobrelevadado forum, podendo-se observar a torre do castelo dos Tem-plários (assente sobre o pódio do templo romano)(Foto: Danilo Pavone).  118PEDRO C. CARVALHO  AEspA 2009, 82, págs. 115-131ISSN: 0066 6742doi: 10.3989/aespa.082.009.005 Ora, serão precisamente esses níveis de aterroromanos, contemporâneos do processo de construçãodo forum, que se encontrarão ainda depositados so-bretudo na sua metade ocidental. E esta enormemassa de terras aqui depositada no momento deedificação do forum acaba assim por conter os ma-teriais que circulavam (ou que já tinham sido aban-donados) nessa data, constituindo assim um depósitoarqueológico com elevado potencial informativo.Embora os materiais que estas terras contêm sejammuito escassos (certos níveis houve que se mostra-ram mesmo estéreis, o que nos levou a pensar quemuitas dessas terras poderiam ser provenientes de umlugar exterior à cidade, sem ocupação), o conjuntode cerâmicas datáveis que mesmo assim foi possívelreunir nesse volumoso aterro, acabou por se revelarsuficientemente extenso e homogéneo, capaz de su-gerir uma datação para esse mesmo processo de de-pósito de terras e construção do recinto forense.Por sua vez, os materiais recolhidos nas sondagens2, 4, 5 e 6, em níveis que antecedem imediatamenteo processo de construção do forum, também contri-buem, como veremos, para reforçar essa referidaproposta de datação. Com efeito, uma outra parceladas sequências estratigráficas (registada essencial-mente nas sondagens 2, 5 e 6), inscreve-se numa faseimediatamente anterior à construção do forum. Talfacto, desde logo, torna inquestionável a presençaneste lugar de construções «pré-forum» —construçõesque, tendo em conta os materiais associados, funci-onaram até à época augustana, i.e., terão sido expro-priadas e demolidas aquando da edificação do fo-rum—. Mas estas construções revelam também, porsua vez, que este centro monumental dos  Igaeditani não se ergueu logo aquando da fundação do aglome-rado populacional romano; nem tão pouco foi erguido—passados alguns anos depois dessa fundação— numlugar vazio de edifícios.Com efeito, este forum foi construído num doslugares mais altos da cidade, no qual já havia outrasconstruções. E estas construções mais antigas apre-sentam uma particularidade: foram erguidas comparedes em terra fundamentalmente taipa, mas tam-bém adobe (Figs. 5-7). Trata-se de um achado queconsideramos merecer um particular destaque, namedida em que se trata de uma forma de construçãoromana raramente (ou mesmo nunca?) atestada emescavação nesta parte setentrional da  Lusitania 3 , masque se encontra referenciada para a  Hispania nasfontes literárias antigas, mais concretamente quandoPlínio as menciona, destacando a sua resistência 4 .Não obstante a durabilidade destas paredes emterra, como se depreende da passagem de Plínio, julgamos que estas em particular só poderão ser en-tendidas como paredes interiores, devidamente abri-gadas e a salvo, portanto, das agressões de agentesatmosféricos (sobretudo a chuva), uma vez que nãoapresentam nenhum soco em pedra que as protegesseda circulação de águas (apenas se identificou umafiada de estreitas lajes de xisto a marcar aquilo queconsideramos ser a linha da parede em contacto como nível do chão). A sua largura relativamente redu-zida (c. 0.36 m) também sugere esta função divisó-ria. E dividiriam espaços provavelmente com funçõesdistintas, a avaliar pelos chãos com diferentes carac-terísticas que se estendem de um lado e de outro daparede de sentido sul / norte 5 (Fig. 8). Por sua vez,à resistência física destas paredes, que ainda hojeapresentam uma altura conservada de 0.90m, juntar-se-ia a inércia térmica da terra, permitindo assimresguardar o interior das áreas construídas dos rigoresclimatéricos. Por último, os troços rectos destas pa-redes de faces afagadas acabam por documentar atecnologia tradicional de construção em taipa: nointerior de taipais ou da forma em madeira, ter-se-á vertido (e apertada com um maço) terra argilosa,depois de ter sido previamente amassada com águae cascalho miúdo de xisto 6 .A estas paredes, e concretamente ao comparti-mento com chão em terra batida, associa-se aindauma lareira «decorada» com círculos impressos (com8,5 cm de diâmetro) (Fig. 5 e 6). Estes círculos im-pressos (obtidos provavelmente a partir do bocal deum vaso) em lareiras e pavimentos são relativamentecomuns nos castros da região do Minho, mas já emníveis de ocupação romana inicial, mais concreta- 3 Mas registada noutras paragens da Hispânia, como porexemplo em Celsa ou  Bilbilis , no vale do Ebro, aonde o ado-be se encontra documentado nas paredes em terra de algumascasas da fase inicial da cidade romana (Beltran Lloris; Mar-tin Bueno, 1982: 149). Não deixaremos de aludir, porém, àsdificuldades que existem na sua identificação em escavação,sobretudo quando se encontram rodeadas pelos seus própriosderrubes, como foi por vezes o caso em Idanha. 4    XLVIII  . quid? non in Africa Hispania que e terra parietes,quos appellant formaceos, quoniam in forma circumdatis iiutrimque tabulis inferciuntur verius quam struuntur, aevisdurant, incorrupti imbribus, ventis, ignibus omnique caemen-to firmiores? (Plínio, História Natural, Livro XXXV ). 5 Para oriente desta parede encontrámos um chão em arga-massa relativamente consistente (aparentada com o opus sig-ninum , dada a mistura de algum tijolo moído), enquanto quepara ocidente, num compartimento com 4.60 m de largo, seobservaram restos de um piso em terra batida. 6 Tecnologia, aliás, que ainda hoje se observa nos murosrurais tradicionais de algumas regiões da Beira Baixa (comona região de Ródão), constituídos por blocos paralelipipédi-cos com 90 cm de altura por 80 cm de comprimento e 30 cmde espessura (Henriques; Caninas 1992: 103).
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